Após termos definido o espírito da biblioteca, identificado os tipos de livros que merecem ser adquiridos e formado uma coleção deles, passemos ao manuseio de um acervo bibliográfico.
Como bem o disse Eduardo Frieiro: "a vida é sobre comer e ser comido". Quem tem livros e os ama luta contra a lei fundamental do mundo, pois as forças da natureza são as maiores inimigas dos acervos, e não pouparão esforços para reduzir substanciamente a vida útil de uma bela coleção, ainda mais em um país tropical como o Brasil.
Limpeza regular: as partículas de poeira proliferam intensamente em tempos de calor, acumulando-se nas estantes e nas obras, tornando indispensável a limpeza dos livros semanalmente ou a cada catorze dias. Para isso, deve-se retirar os livros da estante e usar-se um pano levemente umedecido com álcool e água para higienizar as encadernações, além de passar-se uma escova por entre os cortes e folheiar o exemplar a fim de que saia a poeira presente em seu interior.
Contenção da iluminação: A luz é um dos agente naturais mais danosos aos livros, e a exposição prolongada do acervo aos raios solares é capaz de causar a oxidação do papel e desbotação da tinta. Sendo assim, é essencial retrair os seus efeitos pela adição de cortinas ao ambiente.
Prevenção de insetos: A reprodução dos insetos ditos bibliófagos, como traças e psocopteras, que se alimentam das obras em si, ou de materiais presentes nelas, como a cola, é fatal ao acervo. Para repelí-los, vale adicionar sacos com uma mistura de cravo, canela e louro ao fundo das estantes.
Controle de umidade: há também durante o verão uma variação brusca na umidade, acelerando a degradação das obras. O excesso de umidade causa a ondulação das folhas e inibe a presença de mofo, e a falta causa o esfarelamento. A umidade relativa ideal para a preservação dos livros se dá entre 30% e 50%, o que pode ser alcançado pelo uso de desumidificadores de ar.
Aderir a boas práticas na conservação de livros permitirá que os prazeres proporcionados pela leitura (que, segundo Francis Bacon, nos torna seres completos), se prolonguem, criando um acervo resiliente às forças da natureza, capaz de perdurar por anos e até mesmo exceder nossas existências, servindo como um precioso legado.
Chegamos nas partes mais subjetivas (e supérfluas) do guia. Em bibliotecas institucionais é interessante que se organizem os livros segundo a Classificação Decimal de Dewey (e.g. 100 para Filosofia e Religião, 800 para Literatura, 869.93 para Literatura Brasileira, etc.) e a Tabela de Cutter (e.g. M731 para Machado de Assis), pois assim a realidade física das estantes se harmoniza ao catálogo, e os que estão familiarizados com o sistema poderão encontrar obras específicas com certa facilidade. Para bibliotecas particulares, no entanto, não vemos sentido algum na adoção desses sistemas, pois não se compensa o esforço de imprimir etiquetas e procurar códigos de Cutter para uma biblioteca de 100-350 volumes.
Até mesmo o "CDD" tem seus inconvenientes, pois quem busca livros de Franz Kafka na seção de literatura em língua alemã ignora a existência de seu diário, que está escondido na seção de biografias com outra centena de livros, e a vida de Kafka interessa apenas a quem sabe de sua ficção. É como olhar através de binóculos, perde-se a visão do todo.
Há vários meios de organizar uma estante de livros, seja por autor, gênero, tamanho, cor. Nós somos favoráveis à ordenação (nesta exata ordem) por tamanho, editora, série e autor, enquanto a divisão deve ser feita por gênero, verbi gratia: livros de filosofia, do maior ao menor, unindo os volumes da Coleção Folha Livros que Mudaram o Mundo. Dividimos os gêneros em Informação (enciclopédias, dicionários, manuais de redação, etc.), Filosofia, História (anais, memoriais, biografias, etc.), Literatura (poesia, romance, novelas, etc.). Este método, além de facilitar a procura dos livros, proporciona prazer ao olhar.
É também de importância mor que os livros fiquem dispostos na vertical, e nenhum deles deverá ser empilhado, pois isso tanto dificulta a retirada dos livros que estiverem abaixo quanto os danifica, exercendo peso sobre suas lombadas. Trata-se de reduzir a fricção do processo de busca do livro através de um ambiente que incentiva a leitura, não de apresentar uma estante bela a convidados, o que é vaidade.
Já há vasta literatura acerca dos "ex-libris", então não adentraremos às nuâncias do tema. Popularmente, entende-se o termo como "dos livros de", representando qualquer forma de identificação de propriedade presente em um livro, seja através de carimbos, selos (ditos "bookplates") ou pela escrita.
É uma evolução burguesa das pragas divinas anotadas em livros da Igreja Católica a fim de atemorizar eventuais ladrões. Consistiam em selos com o nome do dono do livro e geralmente adornados com sua heráldica familiar. A ascensão da burguesia coincidiu com a introdução da prensa de Gutenberg na Europa, o que tornou a produção de livros pouco custosa e possibilitou a essa classe amealhar livros e formar bibliotecas de tamanho considerável (durante a época dos livros escritos à mão, uma excelente biblioteca de monastério abrigraria, no máximo, 120 volumes), o que era visto como símbolo de status e poder. Tudo para que você pudesse ler livros do Isaac do Vine, Kéfera e Authentic Games.
A arte do ex-libris é bastante avançada em nosso país e exemplificada pelos selos de figuras ilustres (como o de Juscelino Kubitschek, que é excepcionalmente belo). Há sentido em criar um para si, visto que todos livros saem iguais do prelo e a ideia de que uma coleção pessoal de livros não passa de uma de pilha de obras impressas em massa e, consequentemente, substituíveis (como as pilhas de livros encontradas numa livraria) faz excitar uma certa melancolia nos corações bibliófilos.
Pensamos ser este o real sentido de um ex-libris, ver-se nos livros, pois assim constituem eles uma extensão do ser. É falso e simplista o conceito de identificação de propriedade (jus domini), pois livros não se furtam, apenas não se devolvem. Não é juridicamente relevante o furto de livros (visto que não custam mais o equivalente a uma casa, como antigamente), pois a bibliofilia tem razões que o direito não entende. A dor de ter um livro filado não se explica pelo dano moral ou material. Os bem-pensantes não emprestarão livros sem também receber de empréstimo obras que compensem a perda do volume emprestado. Já perdemos uma belíssima cópia encadernada da Arte da Guerra de Nicolau Maquiavel (sic) após insistentemente suplicar por sua devolução.
Em suma, quem quiser não devolver livros não os devolverá. Quem se jogar na empresa de criar um ex-libris com o ingênuo intento de não ter livros furtados comete um erro crasso, pois não é eficaz, e o resultado desejado só se alcança pelo exercício arbitrário das próprias razões ("fazer justiça com as próprias mãos") ou pelo não-empréstimo de livros, pois uma lide pode surgir apenas de uma pretensão resistida, e quem não faz negócios não terá resistência alguma.
A criação de um ex-libris com intenções puramente estéticas tem o benefício de conferir um diadema institucional a uma coleção particular de livros, do qual faz surgir uma atmosfera de ordem. É preciso ter pensamentos malsãos e os "nervos com um perpétuo desejo incompreensível" (A Alma Encantadora das Ruas, João do Rio) para entender. A bibliofilia faz afligir no hospedeiro desejos impuros, leva-o a subverter o sentido puramente prático do livro e impele-o a fazer coisas que o mero leitor crê absurdas. É uma religião materialista (no sentido filosófico, não segundo o ideal consumerista e algorítmico que os "booktokers" e editores pregam).
Aqueles que quiserem inspiração para a empreitada podem buscá-la no acervo de ex-libris da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin.
Nota-se como tudo que vem sido falado poderia muito bem ser uma conversa retratada em Lucky Star, eis portanto a vaidade dos tópicos discutidos, não podendo existir uma resposta adequada, pois depende integralmente do íntimo individual. Deve ser este o porquê de nos interessar tanto, porém.
Há de existir alguma utilidade em catalogar uma coleção particular de livros, mas até hoje não a encontramos, pois apenas quem tem registro no Conselho Regional de Biblioteconomia é bibliotecário, então não é algo que um autodidata poderia aprender para exercer um ofício (como Leibniz e os Irmãos Grimm). Portanto, é uma atividade munida de caráter puramente estético e supérfluo. Catalogar consiste em enumerar e descrever o acervo. O primeiro catálogo de biblioteca da história foram os Pínakes de Calímaco, encarregado da Biblioteca de Alexandria. Este fez uma descrição dos conteúdos encerrados em cada livro e seus autores.
O autor tem experimentado uma configuração como esta para catalogar livros:
| Autor | Moisés, Massaud |
| Título | A Literatura Portuguesa |
| Páginas | 576 |
| CDD | 869 |
| Formato | Brochura |
| Editora | Cultrix |
| Publicação | 2008 |
| ISBN | 9788531602313 |
| Preço | R$ 25,00 |
| Local | Livraria Hinamizawa |
| Data | 15/10/25 |
É informação o bastante para adquirir conhecimentos valiosos acerca de gostos e gastos ao longo do tempo sem tornar o processo de catalogação tedioso. Há aqueles que incluem gênero literário e textual, mas a nós o mais fundamental é a autoria, pois é mister que já saibamos ao menos minimamente do que se tratam os livros que temos.
Quanto à ferramenta adequada para catalogar, a mais insossa é a planilha de Excel. Tivemos bom sucesso com GNU Recutils, que são ferramentas de linha de comando do Projeto GNU que viabilizam a criação de qualquer base de dados no formato ".rec" com campos editáveis, muito no estilo da tabela acima (e.g. "Title: Aurélio Século XXI", "Price: R$ 5"). Atinge-se um poderoso mecanismo de pesquisa através do "recsel", permitindo puxar obras com meras palavras-chaves ("Marx", "Filosofia", "2014"). É até mesmo possível a criação de sites contendo um catálogo com barra de pesquisa baseado no arquivo ".rec", mas não ensinamos aqui por ausência dos saberes necessários.
Àqueles aversos a computadores (como o autor), é recomendável a aquisição de um fichário de mesa com fichas "4x6", ordenadas por sobrenome ou título e grafadas à caneta. A linha inicial deve ter letra maiúscula a fim de facilitar a navegação. Há uma valia no tempo dispendido com esta ninharia, pois aquele que prestar atenção às investidas das big techs contra a privacidade e o acesso ao conhecimento verá que os registros em papel se ornam de uma beleza distinta por serem unicamente pessoais e inacessíveis aos algoritmos.
Aos amigos da comodidade, há um aplicativo de celular chamado OpenReads, que se presta a organizar uma lista de leituras, separando os livros por "Lendo", "Lido" e "Lerei". Não é um catálogo de biblioteca em stricto sensu, mas permite adicionar campos de metadados e adicionar capas de livros, o que é uma mão na roda. Além disso, tem estatísticas de leitura. Disponível pelo F-Droid.
Mesopotâmia (2.600 a.C)
Tabuletas de Argila (escrita cuneiforme) -> Em sua maioria, registros comerciais e textos religiosos -> Biblioteca de Assurbanípal, em Nínive (668-626 a.C) -> “Epopeia de Gilgamesh”.
Grécia Antiga (séc. VIII a.C – séc. I a.C)
Rolos de Papiro e Tintas Naturais -> Cultura Helenística -> Escolas Filosóficas (Peripatética, Academia Ateniense) -> Biblioteca de Alexandria (séc. III a.C - séc. V d.C) -> Tradução da Bíblia Hebraica para o grego (“Septuaginta”) -> 500.000 volumes estimados -> “Pínakes” de Calímaco
Império Romano (27 a.C - 476 d.C)
Códices (papel velino encadernado em madeira) -> Surgimento das Bibliotecas Públicas e Coleções Particulares -> Armazenamento em prateleiras no interior de paredes (armaria) -> Obras de Cícero, Virgílio, Ovídio.
Idade Média (500 - 1500) e Início da Idade Moderna (1453 - 1789)
Códices (papel velino ou de linho, manuscrito, iluminado e encadernado) / Incunábulos (primeiros livros impressos) -> Chegada do papel de linho pelos povos muçulmanos (séc. XII) -> Escassez de livros, reservados às bibliotecas monasteriais -> “Philobiblon: mui interessante tratado sobre o amor aos livros” de Richard de Bury (1287-1345) -> Invenção da prensa de tipos móveis por Johannes Gensfleisch Gutenberg (1440) -> Biblioteca Vaticana (1450) -> “Bíblia de Mogúncia”, ou,”Bíblia de Gutenberg”, “Bíblia de 42 linhas”, “Bíblia Mazarina” (1462) -> Na Europa, de 30 mil livros (pré-Gutenberg) a 12 milhões (1500) -> “Bibliotheca Universalis” de Conrad Gesner (1545) -> Formação de bibliotecas particulares pela nobreza -> “Conselhos para a Formação de uma Biblioteca” de Gabriel Naudé (1627).
· FRIEIRO, Eduardo. Os Livros, Nossos Amigos. Brasília: Edições do Senado Federal, 2019. 188 p.
Este livro, publicado pela primeira em 1941, constitui a obra nacional que ilustra com maior riqueza o amor sobre os livros, esgotando tudo que há a se dizer sobre o tema e encerrando em suas páginas uma literatura deliciosa e de alto calibre, ilustrada com exemplos históricos que não se encontram alhures. É algo muito maior que um livro sobre livros, é sobre como uma obsessão livresca pode moldar toda uma vida (mais sobre isto no capítulo "Tristeza e Alegria do Bibliófilo Pobre").
· CAMPOS, Arnaldo. Breve história do Livro. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1994. 234 p.
Esta obra ricamente ilustrada expõe toda as evoluções do livro (e.g. tabuletas de argila, rolos de pergaminho, incunábulo...), até chegar à forma que conhecemos, popularizada por Gutenberg. A leitura deste também é saborosíssima, demonstrando tanto a realidade material quanto cultural do livro em suas diversas épocas, tal como a seção que enuncia as leituras aristotélicas e medicinais dos muçulmanos, que impulsionaram a produção livresca ao levar o papel à Espanha. Aquilo que se ama deve se conhecer, e a sapiência do valor inestimável do livro, tão ignorada hoje em dia, nos conduz a um maior apreço e zelo por nossa coleção.
· ESCOBAR, Hipólito. Historia de las bibliotecas. Madrid: Ediciones Pirámide, 1990. 593 p.
De língua espanhola, há tudo aqui no que diz respeito às práticas bibliotecárias adotadas ao longo dos tempos na mesopotâmia e nos países de tradição europeia, além de capítulos a américa latina. Não é uma história analítica e biblioteconômica, figurando mais uma história social das bibliotecas. Nelas o leitor aprende coisas como: na Grécia antiga cada escola filosófica tinha sua biblioteca, e a de propriedade particular de Aristóteles passou pelas mãos de várias pessoas. nas bibliotecas romanas haviam bustos de personalidades literárias de grande renome, na Inglaterra criaram-se cafés literários a fim de combater o alcoolismo entre a classe proletária, é como ver o desenlace dos eventos em primeira mão. Os livros são umas das maiores coisas de gosto do mundo.