Ode aos Vencidos da Vida

“É coisa odiosíssima falar de si mesmo”
Giacomo Leopardi.

“Las únicas personas que nos parecen sensatas son las que opinan como nosotros”
François de la Rochefoucauld.


Dói-me não ser capaz de ler a maioria dos blogs do Neocities. Há de ser um egocentrismo, falta de compaixão, ou complexo de inferioridade meu, mas vejo como temerário falar muito do próprio cotidiano.

Já não há gente o bastante fazendo isso nas redes sociais? Porque vens ao Neocities contar vantagem? Soa contraditório, jogar-se num antro com o fim de ostentar glórias mundanas. Esqueça disso, regale-se um diário, pois que o papel é muito mais íntimo e perene que a rede mundial de computadores.

Não vos deixeis serem levados pelo anseio de sucesso nos empreendimentos, pois tudo é passageiro. Freud nos explica que não há sentimento de culpa até que um mal nos acometa, somente então devassamos nossa consciência tentando encontrar um pecado, uma razão para a desgraça. No entanto, onde não há injustiça não deve haver culpa, como bem ensina Epicuro.

Toda riqueza vem da mente (fechar-se em si mesmo), pois ela é o único bem que nos sobrará ao final. Condicionar a felicidade aos frutos da sorte é um caminho certo para a tristeza.

Queremos que dê tudo certo mas, e se não der? Como tolerar? Não me parece eficaz tentar curar a enfermidade com o próprio veneno.

Mas, que sei eu...? Julgue-me de boa-fé em minha insensatez

Não há nada mais “aburrido” que a realidade, como vocês se comprazem em viver a registrá-la?

Um ser é mais que seu ambiente (seu cotidiano), e quem "não tem vida interior é escravo de seus arredores", segundo Amiel, que, aliás, foi um vencido na vida.

Nós somos a qualidade de nossos pensamentos, o que é muito mais do que aquilo que fazemos...

Conhecer personalidades de tempos passados é afeiçoar-se a quem pôde ver toda a vida acabar em ruínas.

A vida em toda sua exacerbada mortalidade...

“A alma de Demócrito vagava pelo universo, enquanto o gado do vizinho comia sua hortaliças”.

Se ao menos houvessem mais Bernardos Soares escrevendo "biografias sem fatos", assim não existiria meu problema...

(Mais sobre isto em um brilhante poema de verso livre: "Um pouco sobre identidade" por sob-o-sol)