Venho atormentar o leitor com algumas palavras antes deixá-lo prosseguir à obra. Não com a intenção de explicar os eventos que seguem, mas tomar posse de meus direitos como editor desta obra. Quero, sim, fazer meu nome. Entendo a vida como sendo dos autores e do compiladores, ou seja: o aluno que murmurou a resposta e aquele que a repetiu em voz alta. Homero, Platão, Irmãos Grimm. Que são esses pilares do Ocidente se não meros recontadores daquilo que lhes foi dito? Sou também um!
Já pressinto o leitor enfastigado e desejoso de folhear esta brochura por enfasto. Não vos engane, porém. O que lerás não é fábula, mas talvez a maior história da humanidade, pois seus eventos nasceram de seres viventes cuja nobreza fez transcender os limites da miserabilidade humana, ornando suas almas de um caráter lendário similar ao de inúmeras figuras históricas, cujos registros transbordam verdade e, não obstante parecem fictícias.
Tratam-se de fatos relativos à maior atrocidade já cometida pelo homem da qual se tem registro em nossa época. Ao devassar os documentos presentes em nossos arquivos acerca da REPÚBLICA POSITIVISTA DO BRASIL não há nada a se encontrar acerca do que breve breve lerás, caro leitor. De fato, sabe-se muito pouco acerca da referida nação, relegada à barbaridade pela tirania e fechada ao mundo. Dou graças a Deus por ter sido capaz de trazer a lume este documento que, caso seguisse o destino desejado pelos tiranos houvesse sido satisfeita, sua existência esvaeceria como a de castelos de areia.
Este prefácio logo virá ao conhecimento das autoridades, então peço que não endureçam o coração ao que pedirei. As informações disponibilizadas neste livro alimentarão os arquivos nacionais de riqueza ímpar relativa aos costumes do povo brasileiro e sua estrutura política, possuindo considerável valor aos interesses da REPÚBLICA DA CATALUNHA e de seus habitantes. Todavia, ao assiná-las ponho em minha fronte um grande alvo, visto que a inteligência brasileira poderá agora saber minha localização neste pequeno país e ceifar-me a vida. Em virtude disso, requisito proteção militar vitalícia.
Ademais, sopesado meu serviço à nação, não vejo nada de vergonhoso em solicitar a concessão de 240.000 espadas em títulos da dívida pública com juros mensais em meu nome, o que garantir-me-á o necessário para levar uma existência sóbria. Sei que Deus fará derramar compaixão em seus corações para que me providenciem estas recompensas dignas de meu merecimento. Adiante, apresento relato de como tive contato com os eventos descritos.
— D.E. Niez
(LA CORUÑA, 11 DE MAIO DE 2004)
Foi no último outono. Estava no café Gracian tendo um confortoso chocolate enquanto folheava desinteressadamente o "Diário del Pueblo", reclinando-me num dos assentos.
Passava meu domingo da maneira mais cômoda possível, iluminado pelo gentil sol da tardinha. Olhava pelos arredores da "Plaza de la Eterna Justicia" e nada havia de lúgubre ou ameaçador na existência.
Hoje julgo que desgracei-me ao fazer isto, pois dei de cara com a personalidade que assombra meus pensamentos desde então. Dele decorrem todos os meus questionamentos existenciais, mas sei que jamais os responderia. Hermes satânico, mensageiro da perdição, mera engrenagem do acaso.
Trazia consigo uma livralhada em uma carroça conduzida pela própria força. Também carregava em suas faces a dor de um infortúnio que perdura desde o início da civilização, prolongado pela pequenez humana e pela ineficiência de um sistema democrático representativo. Como hão de resolver os problemas duma sociedade que não habitam? Não mais, pois ornaram-se com riquezas extramundanas. Não são representantes do povo, mas dos interesses próprios. É mais uma casta política.
Não deixem-me afogar em pormenores.
— Tens interesse, Sr.?
Enquanto perdia-me em devaneios e ilações, o sujeito percebeu-me e cessou o mover da carroça
Com certo constrangimento e rubor fui em sua direção e me pus a examinar o acervo.
A primeira vista não encontrei senão romances de polpa, almanaques, manuais obsoletos.. mas havia algo que se destacava..
Um caderno em couro esverdeado.
Folheava o objeto arcano com leve curiosidade, e vi que estava integralmente preenchido com palavras em "bolígrafo".
— Onde tu achastes isto?
— Deus o sabe... vais levar o romancete?
— Isto não é livro algum, trata-se dum diário.
Logo após minha asserção, suas melancolia metamorfoseou para uma compleição sombria.
— Deixe-me vos dizer, Sr., já fui catador de papel quando rapazote. Mas hoje sou alfarrabista. Veja o caminho que percorri, do reles papel ao livro! Em meu contato com os tomos que encontro entulhado por aí até digno-me de ler e aprender algumas palavras. Talvez nas próximas três gerações uma situação similar a esta se repita, mas com um de meus descendentes em vosso lugar. Eis o teatro da humanidade: os mesmos caracteres representados por diferentes atores. Tenha um bom dia!
Processava seu enigmático discurso e, quando recobrei a atenção, já havia retomado a andança. Não insisti em perquirí-lo. Horas depois percebi que não me havia cobrado pelo volume, e não lembrei de pagá-lo. Jamais tomei a revê-lo.
Julgo ter demonstrado satisfatoriamente como vim ao contato do livro que encerra em suas páginas a história que vos será revelada em breve.
— D.E. Niez
(LA CORUÑA, 19 DE MAIO DE 2004)